Ferramentas para um futuro tecnologicamente igualitário
Por que software livre (ou tecnologia livre) é necessário
Eu tenho observado com bastante frequência na minha bolha da internet a preocupação de muitas pessoas com avanço das grandes empresas de tecnologia em cima das nossas vidas e da nossa privacidade.
Embora seja louvável a preocupação e o pensamento crítico sobre o colonialismo digital que tem se intensificado em virtude da concentração do espaço digital (e de software) nas mãos de poucas empresas, é preocupante por si só a falta de pensamento propositivo por parte de quem critica isso. Tendo isso, gostaria de fazer a minha contribuição para um debate que sinto ser incompleto.
Estes problemas foram identificados já há algum tempo, especificamente por Richard Stallman e pela Free Software Foundation em 1983 pelo estabelecimento do projeto GNU. Isso ocorreu no momento em que as licenças de software estavam ficando cada vez mais proibitivas, o que implicou no início do desenvolvimento de um sistema operacional completamente livre e aberto. O desenvolvimento desse sistema nos deu o GNU/Linux e a maior parte das distribuições da família de sistemas operacionais que fornece a infraestrutura da internet moderna. Ainda, de um ponto de vista político o projeto falhou em oferecer a liberdade de computação para o cidadão e usuário comum. Acredito, entretanto, que a existência do sistema é por si só um sucesso parcial. O sucesso disso implica na possibilidade de uma alternativa aos softwares proprietários a qual não existia antes, o que por si só já é louvável.
Um sistema operacional livre e aberto como o Linux fornece vários pontos positivos em comparação com sistemas fechados. Destas, um dos mais importantes em minha opinião é tornar computadores antigos mais utilizáveis. Em um país como o Brasil em que o preço dos eletrônicos é muito mais caro que a renda média do trabalhador, isso se torna um potencial de acessibilidade social à computação que sistemas como o Windows não permitem e até desencorajam. Além disso, saliento que o controle do usuário sobre a máquina deveria ser imprenscindível. As razões para que apoiemos o software livre são, como podemos ver, políticas em si, não somente econômicas. A liberdade de computação, que implica a propriedade sobre a própria informação e dados só podem ser respeitados no contexto de tecnologias abertas. Esperar isso somente de legislação é uma tolice e uma ingenuidade. As soluções tecnológicas devem ser buscadas e aplicadas, mesmo que em nível individual, o qual pode ser o mais importante atualmente.
Há uma série de problemas atuais que ainda dificultam a liberdade do usuário, que facilitam a captura de dados e vigilância em massa. O maior desses, ao meu ver, é a centralização das redes sociais e a tendência pela computação em nuvem. Se observássemos a IA como um grande mal proveniente da coleta indiscriminada de dados, devemos lembrar que esta é uma consequência inevitável da privatização da internet. Entretanto, as soluções para esses problemas, pelo menos no nível individual, existem. Software livre e aberto, ainda mais no nível do sistema operacional, funcionam como um primeiro passo para uma pessoa se livrar da vigilância da web moderna. Os protocolos de comunicação abertos existem, como Matrix e XMPP, e permitem a comunicação de forma independente das redes centralizadas, mesmo que a independência verdadeira exija um pouco de Self-Host.
As ferramentas para resolver o problema já existem. A questão verdadeira é educação, divulgação e, acima de tudo, conscientização.
Como Educar
A tarefa de ensino de informática e de letramento digital em um sentido mais amplo já foi um tema debatido, mas principalmente no que tange à profissionalização das habilidades em computação. Houve muito pouco a ser falado sobre o papel social do conhecimento e uso das novas tecnologias, ainda mais em relação à educação sobre tais tecnologias. Ainda, é interessante nos lembrarmos de quais tecnologias estamos falando. A forma usual de ensino de informática sempre foi sobre o uso de ferramentas proprietárias de edição de documentos (o pacote Office da Microsoft principalmente), mas nunca sobre o funcionamento do computador em si, sobre o uso de ferramentas que libertem e que empoderem, tal como é o Linux e as ferramentas deste por exemplo.
Tendo isso, algumas propostas de ambientes de educação popular são interessantes de discutir. Um que apresenta potencial bastante grande são os Hackerspaces. São ambientes de trocas comunitárias e de desenvolvimento de projeto em grupo. Estes possibilitam um local de aprendizagem democrático que sinto falta na minha cidade. Infelizmente, esse tipo de espaço é difícil de encontrar e até de constuir e manter, devido principalmente à natureza voluntária. Outra possibilidade é simplesmente levar as tecnologias às pessoas pela própria internet e esperar que busquem aprender e testar por iniciativa própria, como foi o meu caso. Ainda, acredito que um espaço físico que socializa o aprendizado de tecnologia é a melhor solução mesmo que seja mais imprático.
O ensino de tecnologia que estou propondo parte para a construção de ferramentas que possam contribuir para uma sociedade mais livre e aberta. Ainda, não quero cair em idealismo no que tange ao impacto dessas coisas. Para uma mudança social, o movimento político contra o cerceamento das nossas vidas digitais é necessário. A responsabilização das Big Techs e a pressão por isso ainda é uma pauta necessária. Entretanto, há claros benefícios na construção de redes abertas e do uso de tecnologias abertas que não devem ser ignorados, mesmo que em nível individual. Falarei desses benefícios e das tecnologias mais em outro momento, mas esse tipo de informação não é simplesmente divugada por aí, mesmo que tem a possibilidade de impacto social bastante grande. A divulgação disso, que pretendo fazer aqui, é uma atividade que gostaria que outros tomassem, e convido quem lê isso a fazê-lo. Falem de Linux para as pessoas, promovam um sistema que permite usar computadores mais antigos para trabalho, o que tem um impacto grande em um país onde eletrônicos são comparavelmente caros em relação à renda média do trabalhador comum.
Aqui fica exposto a razão para a qual faço esse espaço na web, para tentar educar as pessoas sobre os softwares abertos, escrever tutoriais sobre Linux e Self-Host para tentar tornar essas coisas mais acessíveis, na medida do possível.